“Ser de direita ou de esquerda não se resume a quem você apoia. O que define um lado ideológico são os métodos aplicados nas suas ações. Se analisarmos o DNA do bolsonarismo, veremos que ele é um 'filho rebelde' dos métodos da clássica extrema esquerda populista.” Daniel Souza Camilo 01/12/2025 08:10
A Ciência Política moderna discute muito: a Ferradura Teórica (ou Teoria da Ferradura).
Essa teoria sugere que a extrema-esquerda e a extrema-direita não estão em lados opostos
de uma linha reta, mas sim em uma ferradura, onde as pontas se curvam e quase se tocam
no autoritarismo.
O bolsonarismo é o ponto exato onde a ferradura se fecha e, por isso, é o que eu chamo de
'Neobolchevismo Teocrático': um movimento que veste a camisa da direita para aplicar o
manual da extrema-esquerda do século XX.
O bolsonarismo não quer conservar a democracia liberal; ele quer o modelo chinês de
mercado com o modelo norte-coreano de sucessão, tudo isso sob uma liturgia estalinista
que substitui a lógica pela adoração ao 'Mito'.
Horseshoe Theory
A autoria da Teoria da Ferradura (em inglês, Horseshoe Theory) é atribuída ao escritor e
filósofo francês Jean-Pierre Faye.
Ele introduziu esse conceito em sua obra de 1972, intitulada Línguas Totalitárias
(Langages totalitaires). A teoria baseia-se na ideia de que a política não deve ser vista como
uma linha reta (onde os extremos estão o mais longe possível um do outro), mas sim como
uma ferradura.
Faye argumentou que, embora a extrema-esquerda e a extrema-direita defendem
ideologias diferentes no papel, os seus métodos de exercício de poder e comportamento
social são quase idênticos.
Para Faye, as "pontas" da ferradura se aproximam em sua rejeição comum à democracia
liberal e ao centro político, preferindo estruturas autoritárias e o culto ao líder. Ele utilizou
essa teoria especificamente para explicar como o Nazismo (extrema-direita) e o Stalinismo
(extrema-esquerda) compartilhavam a mesma essência totalitária.
Essa teoria é exatamente o que sustenta o Neobolchevismo Teocrático: ela explica como
um movimento que se diz de direita pode, na prática, tocar a ponta da extrema-esquerda ao
adotar métodos de seita, controle de massa e repressão a dissidentes.
O Culto ao "Grande Líder"
No Maoísmo/Estalinismo: O líder não é um gestor, é a personificação da verdade. Mao
era o "Grande Timoneiro"; Stalin, o "Pai dos Povos". Questioná-los era questionar a própria
realidade.
No Bolsonarismo: O termo "Mito" cumpre a mesma função sagrada. O líder é infalível. Se
ele diz algo hoje e o oposto amanhã, o seguidor não vê contradição, vê "estratégia". É a
substituição da lógica pela fé no líder supremo.
A "Revolução Cultural" e o Expurgo de Traidores
No Maoísmo: Mao lançou a Revolução Cultural para destruir as "quatro velharias" e
perseguir qualquer um que não fosse "puro" o suficiente. Intelectuais e aliados de ontem
foram humilhados e eliminados publicamente.
No Bolsonarismo: O "Gabinete do Ódio", “As tias do Zap” fazem o mesmo no digital.
Qualquer aliado que discorde minimamente (como ex-ministros ou antigos apoiadores) é
carimbado como "traidor", "melancia" ou "comunista infiltrado". A busca pela pureza
ideológica é idêntica.
O Ataque às "Quatro Velharias" à Brasileira
Na década de 1960, Mao Tsé-Tung lançou a Revolução Cultural na China com o objetivo de
erradicar as "Quatro Velharias" (Velhas Ideias, Velha Cultura, Velhos Costumes e Velhos
Hábitos), visando purificar a sociedade e consolidar o poder totalitário. O bolsonarismo,
embora sob uma roupagem de direita, reproduz metodicamente essa estrutura de
destruição para impor sua própria hegemonia.
Velhas Ideias: No Maoísmo, o alvo eram os conceitos filosóficos e espirituais tradicionais
(como o Confucionismo). No bolsonarismo, observa-se uma prática idêntica:
Filósofos clássicos são condenados ou lidos de forma distorcida para servirem à narrativa
do líder. As religiões de matriz africana são marginalizadas e setores do catolicismo
tradicional ou progressista são rotulados como "comunistas infiltrados", visando substituir a
fé diversa pela adoração ao líder "Mito".
Velha Cultura: Mao buscava destruir manifestações artísticas e literárias que não serviam à
revolução. O bolsonarismo aplica esse método através da "Guerra Cultural":
A classe artística é tratada como inimiga pública e a cultura nacional é vista com suspeita.
Substitui-se a produção cultural diversificada por uma propaganda de saturação que
mantém o seguidor em um estado de alerta constante contra conspirações imaginárias.
Velhos Costumes: Mao desejava alterar rituais familiares e sociais. No bolsonarismo, a
subversão dos costumes ocorre pela conveniência do poder:
Critica-se ferreamente o auxílio social como "compra de votos" quando feito pela esquerda,
mas adota-se o mesmo mecanismo (mudando apenas o nome) para garantir a fidelidade da
massa ao líder. A mesma coisa quando defende-se uma estrutura familiar rígida, mas
criam-se divisões utilitárias ("direita gay"), sem que haja o reconhecimento real de direitos
fundamentais, servindo apenas como escudo político.
Velhos Hábitos: O Maoísmo buscava eliminar comportamentos herdados do passado
imperial. O bolsonarismo ataca hábitos democráticos modernos através do saudosismo
autoritário:
O culto ao período militar de 1964 serve como ferramenta para deslegitimar os hábitos de
convivência democrática e o respeito ao Estado Democrático de Direito. Substitui-se o
hábito da lógica e do debate técnico pela obediência cega e pela perseguição agressiva a
quem pensa diferente, mimetizando os tribunais públicos da Guarda Vermelha no ambiente
digital.
Conclusão: A análise das "Quatro Velharias" aplicada ao contexto brasileiro prova que o
bolsonarismo opera como uma seita revolucionária de métodos estalinistas/maoistas.
Ele não deseja "conservar" nada; ele deseja a ruptura total para a tomada do Estado,
transformando o Brasil em uma estrutura de poder dinástica e unipartidarista sob o pretexto
de combater o mal que ele mesmo pratica.
A Dinastia Patrimonialista
Na Cuba de Fidel/Coreia do Norte: O poder é um bem de família. De Fidel para Raúl; de
Kim Il-sung para Kim Jong-il e Kim Jong-un. O Estado se funde com o sobrenome da família
real.
No Bolsonarismo: A estrutura é familiar. Os filhos (01, 02, 03, 04) atuam como comissários
políticos. A ideia de que "se o pai cair, o filho assume" ou que "a esposa é a sucessora
natural" prova que o movimento não acredita em democracia, mas em uma linhagem
sucessória, como nas piores ditaduras de esquerda.
O Agitprop (Agitação e Propaganda) Permanente
No Nazicomunismo: A propaganda não serve para informar, mas para manter a massa em
estado de choque e mobilização contra um "inimigo" (a burguesia, o imperialismo, os
judeus). Se não há guerra, ou inimigo oculto o regime morre.
No Bolsonarismo: O governo nunca foi de gestão, foi de militância. O inimigo muda
conforme a conveniência (o STF, a China, as urnas, o sistema). O seguidor é mantido em
um estado de "alerta apocalíptico" constante. Se o inimigo acabar, o bolsonarismo perde a
razão de existir. Porque conteúdo, proposta de governo e governabilidade; levando em
conta o ‘Estado Democrático de Direito’ não existe.
O Sequestro das Instituições (Aparelhamento)
No Chavismo: Hugo Chávez não destruiu as instituições de fora para dentro; ele as
corroeu por dentro, colocando leais em postos-chave (Justiça, Exército, Petroleiras) para
garantir que a lei fosse o que ele quisesse.
No Bolsonarismo: o discurso contra o 'sistema' esconde a mesma sede de aparelhamento.
A tentativa de controle da Polícia Federal; o uso da ABIN paralela e a pressão sobre as
Forças Armadas; a indicação de um 'terrivelmente evangélico' ao Supremo; a indicação de
deputado aliado ao TCU; a tentativa de nomear o filho para a Embaixada (ou controlar a
PF); a cogitação de indicar filho senador ao STF; a nomeação de ex-juiz federal para o
Ministério e a tentativa de criar um 'Superministério' da Justiça e Segurança Pública para
perseguir e monitorar opositores; a tentativa de trocar delegados da PF para cessar
investigações contra familiares; e a tentativa de usar o Supremo Tribunal Militar para anular
o resultado das eleições e prender ministro do STF... Tudo isso são métodos chavistas
clássicos: transformar o braço do Estado em segurança particular do líder.
E por fim…
O Sequestro do Termo 'Direita': O bolsonarismo 'sequestrou' a bandeira do
conservadorismo para atrair o povo cristão e patriota, mas o seu Modus Operandi (o jeito de
agir) é o de uma seita revolucionária de esquerda. Eles não querem conservar as
instituições; eles querem tomá-las para si. E essa última é o propósito central que por sua
vez deveria ser uma das etapas da transição do socialismo para o comunismo antes de
abolir a figura do poder estatal.
Moral da História: Não se engane pela cor da camisa. Se o método é de seita, se o
controle é de massa e se o líder é um deus, o nome disso na história sempre foi um só:
Autoritarismo Populista — comumente, histórica e filosoficamente exercido e praticado pela
esquerda extremista do século XX.
Referências: Totalitarismo e o Pensamento Mítico
1. Hannah Arendt (A maior autoridade em Totalitarismo)
"As Origens do Totalitarismo", ela explica que movimentos totalitários não se importam com
a verdade, mas com a coerência da ficção: não importa se o líder mentiu; importa que a
mentira sustente o mundo idealizado deles. Hannah Arendt descreve como esses
movimentos destroem a fronteira entre fato e ficção, exatamente como o bolsonarismo faz
com as teorias da conspiração.
2. Ernst Cassirer (O Mito do Estado)
"O Mito do Estado", Cassirer analisa como a política moderna pode "regredir" ao
pensamento mítico em tempos de crise. Ele explica que, quando as pessoas estão com
medo, elas param de querer soluções técnicas e passam a querer um "Salvador". O líder
deixa de ser um político e vira um herói mítico. Isso prova a "Idolatria" e o "Messianismo" do
Bolsonarismo, do Leninismo, Maoismo, o Castrismo, a dinastia Kim…
3. Karl Popper (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos)
Popper defende que a democracia é o regime onde podemos nos livrar de governantes
ruins sem derramamento de sangue. Ele critica o Historicismo — a ideia de que o destino
da nação está traçado e só um líder entende esse destino. Ao dizer "sem mim o Brasil
acaba" ou “Se eu tivesse morrido em 2018, o Brasil estava destruído”; o líder Bolsonarista
agiu como os inimigos da sociedade aberta que Popper descreveu! O bolsonarista nega a
alternância de poder; caso não seja um dos filhos. O Bolsonarista sonha com uma dinastia.
E dinastias, em 99,99% das vezes, são regimes autoritários e comunista.
4. Eric Voegelin (Religiões Políticas)
Voegelin é o filósofo que melhor explica o porquê o bolsonarismo é uma seita.
Voegelin, cunhou o termo "Religiões Políticas". Para ele, quando o homem moderno se
afasta da religião tradicional substituindo ou confundindo os ‘Messias’ ele tende a divinizar a
política. O movimento político passa a ter liturgia, profetas e "dogmas" inquestionáveis.
5. Theodor Adorno (A Personalidade Autoritária)
Adorno estudou o perfil psicológico das massas que apoiam regimes autoritários.
Ele identificou que o indivíduo autoritário tem uma necessidade cega de se submeter a uma
autoridade superior e, ao mesmo tempo, de perseguir quem é diferente. Isso explica a
perseguição e agressividade nas redes sociais contra "traidores".
Adendo de Contexto:
O Nazismo era de Direita ou de Esquerda?
Esta é, sem dúvida, a "caixa de Pandora" dos debates políticos modernos. Para entendê-la, precisamos separar o rótulo (nome) da substância (prática), exatamente como fizemos com o bolsonarismo. Atualmente, uma ala da direita — e principalmente o bolsonarismo — defende que o regime liderado por Adolf Hitler (1933-1945) era uma ramificação da esquerda, agarrando-se ao termo "Nacional-Socialista" presente no nome do partido (NSDAP).
O Nome "Socialista" como Estratégia de Marketing
O Partido Nazista (NSDAP — Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães) adotou o termo "Socialista" não por ideologia marxista, mas por puro oportunismo político.
Na Alemanha dos anos 20, o socialismo era a "febre" entre os trabalhadores. Hitler "sequestrou" a palavra para atrair a classe operária que estava migrando para o Partido Comunista. O argumento de Hitler era que o seu socialismo seria "ariano" e "nacional", focado na raça, enquanto o socialismo de Marx era "judaico" e "internacionalista". Ou seja: ele esvaziou o sentido original da palavra para usá-la como isca de massas.
Por que o Nazismo é de Direita e não de Esquerda?
Na Esquerda (Marxismo/Comunismo), o motor da história é a Classe; o objetivo é que o operário vença o patrão (Internacionalismo). No Nazismo, o motor da história é a Raça; patrão e operário devem estar unidos em prol da nação, desde que pertençam à mesma etnia (Nacionalismo Extremo).
Diferente da esquerda tradicional, que busca estatizar os meios de produção, o Nazismo privatizou em massa. Inclusive, o termo "privatização" foi cunhado por economistas para descrever a política alemã dos anos 30. Embora as empresas fossem privadas, os donos deveriam obedecer cegamente ao Estado. Caso contrário, a fábrica seria confiscada. É exatamente o modelo de "coleira estatal" que vemos no modelo chinês e que
sustenta a tese do Neobolchevismo Teocrático: o mercado existe, mas o controle político é totalitário.
Conclusão: O Nazismo é de Extrema-Direita porque é ultranacionalista, preserva a hierarquia social, defende a propriedade privada sob tutela estatal e rejeita visceralmente o conceito de igualdade universal.
NOTA METODOLÓGICA E TERMINOLÓGICA
Para a plena compreensão deste trabalho, faz-se necessário estabelecer as seguintes premissas acadêmicas: Diferenciação entre Conteúdo e Forma: Esta tese distingue a ideologia anunciada (o discurso de direita) do método de execução (o DNA revolucionário de esquerda). O termo "Neobolchevismo Teocrático" descreve justamente essa hibridização onde a "roupagem" é teocrática, mas a estrutura é de seita revolucionária.
Uso do termo Nazicomunismo: O conceito é empregado estritamente para descrever o comportamento totalitário compartilhado pelos extremos.
Ideologia (O "Quê"): O Nazismo é de Extrema-Direita devido ao seu ultranacionalismo étnico e preservação de hierarquias sociais sob a tutela estatal. Já o Comunismo é de Extrema-Esquerda por focar na luta de classes e no internacionalismo proletário.
Método (O "Como"): O termo Nazicomunismo é utilizado para descrever o Modus Operandi
compartilhado: culto ao líder, propaganda de saturação (Agitprop), expurgo de traidores e
aparelhamento das instituições.
Conclusão: Não há contradição em afirmar que o Nazismo é ideologicamente de direita, mas opera através de métodos "nazicomunistas". É o fenômeno explicado pela Teoria da Ferradura de Jean-Pierre Faye: objetivos opostos, mas o mesmo manual de destruição das liberdades.
Rigor Científico-Político: As análises aqui presentes baseiam-se na Teoria da Ferradura de Jean-Pierre Faye (1972) e em pilares da filosofia política do século XX, como a "Personalidade Autoritária" de Theodor Adorno e as "Religiões Políticas" de Eric Voegelin.
27/02/2026 12:27
Daniel Souza Camilo
Instagram: @danielsouzacamilo
E-mail: deputadodanielcamilosp@gmail.com
Jornalista, graduando em Gestão Pública, Ciências Políticas e Direito.
Escritor e autor da obra “TVIME – Teoria dos Vetores Inconscientes da Manipulação Estratégica”, que apresenta uma leitura psicanalítica e político-comportamental do manipulador em três fases: o Inocente, o Semi-Inconsciente e a Engenharia
da Farsa.
Fui assessor parlamentar — Chefe de Gabinete na Câmara Municipal de Santos/SP 2010/2012 e candidato a Deputado Federal nas eleições de 2022, conquistando 4.120 votos.

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